Jack Shephard, um neurocirurgião americano, acorda desorientado, deitado em meio a uma vasta floresta de bambus. Trajado em um terno escuro, percebe que está carregando um pequeno frasco com um conteúdo transparente dentro, não revelado até então. Em seguida, Jack vê em meio as árvores de bambu um cachorro labrador, que some no mesmo instante. Ele se levanta e começa a correr em busca deste cão.
Jack então chega à uma praia tropical deserta, onde vislumbra a cena de uma queda de avião. Trata-se do vôo 815 da Oceanic Airlines, que fazia a rota de Sydney para Los Angeles. Ele logo se depara com certa de cinquenta pessoas desesperadas que se reunem ao redor dos destroços do avião. Algumas gritam pedindo ajuda, outras correm desnorteadas ou ajudam os acidentados. Frente à situação, Jack usa seus conhecimentos médicos para fazer o possível. Durante o acidente, conhece diversos personagens que terão destaque ao longo da trama. Dentre eles estão uma mulher gestante, Claire Littleton; Hugo “Hurley” Reyes; uma mulher inconsciente que ajuda a resgatar, Rose; e Boone.
Quando o fogo e a destruição cessam, Jack conhece Kate Austen, que diz ter visto a ruptura da cauda do avião durante a queda, e que tal parte provavelmente se encontra próximo do lugar de onde estão. Em posse de tal informação, ele decide buscar por sobreviventes no dia seguinte. No final da tarde, a serenidade é interrompida por um som alto e aterrorizante de uma criatura que vaga oculta pela floresta.
No dia seguinte, Jack parte junto com Kate e um terceiro personagem, apresentado como Charlie Pace. Conforme o trio se adentra na floresta, uma tempestade começa. Eles então encontram a parte frontal do avião, localizado entre os galhos das árvores, e decidem entrar, encontrando apenas um sobrevivente na cabine, o piloto do avião. Mais uma vez, o som aterrorizante volta, dessa vez mais alto. Preocupado, o piloto olha para fora da cabine e é então puxado por uma criatura desconhecida que não é revelada, desaparecendo. Aterrorizados, os três sobreviventes fogem pela floresta. Momentos depois, quando já não há mais tempestade, os três encontram o corpo dilacerado do piloto do avião, sustentado sobre os galhos de uma árvore.
Diante de toda esta trama apresentada no primeiro episódio, começa uma série mundialmente conhecida pela sua abordagem narrativa considerada um tanto quanto complexa e ampla, se comparada com as demais até então. Em uma primeira perspectiva, podemos ser levados a acreditar que Lost é mais uma entre tantas outras franquias televisivas a utilizar somente recursos clássicos de narrativa, como na apresentação dos personagens e do conflito principal. No entanto, sua estética é totalmente recriada com técnicas inovadoras como, por exemplo, a distorsão entre tempo e espaço (flashback, flashfoward), permitindo um maior leque de fronteiras, onde camadas narrativas diferentes são construídas, sobrepondo-se e se complementando.
Em uma era onde a variedade de mídias estava (e ainda está) em ascensão, Lost era, teoricamente, apenas uma obra televisiva. Entretanto, tal série se tornou pioneira em ampliar sua linguagem através dos meios hipermidiáticos. Seu principal diferencial, o que tornou consequentemente uma das séries mais conhecidas e comentadas até hoje, foi saber aproveitar o que é chamado de “Cultura da Convergência”: com sua trama cercada de mistérios e mais mistérios que se perdiam em uma gigantesca teia de fluxogramas, ficar preso às telas da televisão não era o suficiente para total compreensão da obra. Lost vai além e oferece uma infinidade de fontes para extrair o conteúdo de suas referências sutilmente colocadas no decorrer dos episódios. A internet era o foco alternativo mais forte onde fãs de todo o mundo debatiam sobre as possíveis soluções para os mistérios que rondavam a história. Mais do que isso, uma nova relação surgia entre produtor e consumidor: com a presença de fóruns e fanpages, podia-se ter ciência do que os espectadores mais assíduos discutiam sobre a série. Além das discussões, tais fãs também criavam várias teorias para mistérios que até mesmo os criadores da série não tinham suas respectivas soluções. Iniciava-se aí a possibilidade de dar continuidade à trama com idéias de espectadores, com teorias que faziam algum sentido, e eles chegavam até mesmo a criar séries paralelas para dar explicações a determinados acontecimentos ocorridos em Lost.
Através da obra em questão, conseguiu-se atingir a plena conexão transmidiática citada por Henry Jenkins. Partindo de uma única plataforma, a narrativa é oferecida a usuários que anseiam por tomar parte no desenrolar da história, e acabam, por conseqüência, obtendo algum crédito na criação da obra ao contribuir para a trama (no caso, da série Lost) com diferentes conceitos, partindo de mídias alternativas.
(Gabriel Galvão & Luigi Oliveira)










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